Hoje o Miguel completou um mês na escolinha nova e esse aniversário me trouxe à memória todos os sentimentos que eu carregava antes dele começar. Eu escolhi a escola que me disseram ser a melhor da região, pedi a Deus que nos desse uma casa perto dela e que nos desse uma vaga para o Miguel, se essa fosse a Sua vontade. E aconteceu tudo da maneira como eu havia pedido à Ele. Eu estava excitada, feliz e segura que ele teria uma nova chance. Uma chance bem diferente das chances que ele tinha recebido até então.
Acho que já contei aqui no blog, o quanto foi difícil para nós na escolinha anterior. Por causa do atraso de fala do Miguelzinho, a dificuldade de se comunicar e por não ser entendido por nenhuma outra criança ou adulto, ele criou um método de se defender e de expressar o que queria e era muito agressivo com as outras crianças. Ele foi chamado de "criança problemática" e mesmo depois, quando já podia conversar, quando já não mordia mais, ninguém fazia a menor questão de entendê-lo. As portas estavam sempre fechadas para tudo o que a gente pedia. O direito dele era de estar na escola três horas por dia, metade do que as outras crianças ficavam e para todo o resto a resposta era um duro não. Foi um tempo difícil, de muita dor e de muitas provacoes. E então um tempo novo chegou para nós!
A escola nova só oferecia vagas para crianças que ficassem acima de 8 horas por dia. Isso pra mim foi um choque. Ok, eu sabia que ele precisava de contato com a língua alemã e com outras crianças, mas nunca tinha passado sequer pela minha cabeça, que meu filho iria comer fora de casa e ficar tanto tempo longe de mim. Outro choque, foi que nos primeiros três dias eu precisaria estar com ele o tempo todo na escolinha, facilitando a adaptacao dele. Seria bom se eu tivesse alguém que cuidasse do Davi, mas eu não tinha e tive que levar o pequeno junto, e não foi nada fácil controlar um bebê no meio de tantas crianças.
Naqueles dias, percebi o quanto o Miguel era importante e bem vindo lá. Hoje sou agradecida por aqueles longos três dias. Eu nunca escondi o histórico de agressividade dele, nunca escondi o problema de fala e ninguém nunca olhou o meu filho diferente de qualquer outra criança de lá. O Miguel se adaptou à tudo, inclusive à comida. Nunca foi agressivo, consegue se comunicar e tem amigos. Ele adora ir para a escolinha, se sente bem e feliz lá. Tem dias que me pede para buscá-lo mais tarde, por que quer ficar mais tempo.
No primeiro dia eu senti uma confusão de emocoes. Uma parte de mim estava feliz, outra tao amedrontada... Eu sabia que seria um novo desafio e carregava tantas experiências anteriores ruins, que por mais que acreditasse que seria diferente, em alguns momentos eu imaginava que passaria por todos os problemas e preconceitos novamente.
Hoje, um mês depois, o meu coracão se enche de gratidão! Todas as experiências difíceis, serviram de degraus para o que estamos vivenciando hoje. Foi um tempo difícil, mas necessário para o crescimento de cada um de nós na nossa família. A dor é ruim no momento que vivemos, a provacão parece sempre um obstáculo grande demais. Mas, ao sair do deserto, quando olhamos para trás, vemos tudo o que vamos vencendo ao longo da nossa caminhada. Percebemos que as aflicoes nos aproximam mais de Deus, e que elas são pequenas demais perto do que Ele já levou por nós. E nesse momento a gente se enche de forca, fé e gratidão.
Nada é para sempre, nenhum problema, nenhuma luta. Tudo passa tao rápido, que quando nos damos conta, o hoje já se fez amanha. E assim vamos caminhando, certo de que novas aflicoes surgirão no caminho. A gente não está livre delas num mundo tao contubardo quanto o nosso, mas tenho certeza que a vitória estará sempre lá para àqueles que tiverem fé.